10. CULTURA 21.8.13

1. LIVROS - FERNANDO PESSOA EM CPSULAS
2. LIVROS - A REINVENO DOS CLSSICOS
3. CINEMA - CINEASTAS DECLARAM SEU AMOR PELO RIO
4. CINEMA - SOLDADOS DO FUTURO
5. EM CARTAZ  MSICA - O ENCONTRO DE MARCOS VALLE E STACEY KENT
6. EM CARTAZ  LIVROS - UM INFANTE NO CINEMA
7. EM CARTAZ  ARTE - MUITO ALM DA LOUCURA
8. EM CARTAZ - CINEMA  ENTRE AMORES
9. EM CARTAZ  TEATRO - COMDIA BEM-VESTIDA
10. EM CARTAZ  AGENDA - MIMO/ED WOOD/ZUBIN MEHTA
11. ARTES VISUAIS - NO PAS DAS BOLINHAS
12. ARTES VISUAIS - O JARDIM SENSORIAL DE MARIA NEPOMUCENO

1. LIVROS - FERNANDO PESSOA EM CPSULAS
Bigrafo do escritor portugus lana coletnea de frases que ajuda a entender a vida do poeta
Ana Weiss

 tarefa insana tentar levantar o nmero de citaes atribudas indevidamente a grandes autores no imenso telefone sem fio que a internet se tornou. Jos Paulo Cavalcanti Filho, autor de uma das mais importantes biografias do poeta Fernando Pessoa, tinha, porm, um filtro bem afiado quando resolveu fazer uma coletnea de trechos deixados pelo autor portugus: uma pesquisa que consumiu dez anos e mais de 30 viagens a Lisboa e que lhe valeu prmios como o Jabuti, Bienal do Livro de Braslia, Jos Ermirio de Moraes, da Associao Brasileira de Letras e Dario Castro Alves, em Portugal.

ELEGNCIA - O escritor acreditava que o artista devia ser belo e elegante. E que a ele restaria a segunda opo

Li mais de 30 mil pginas, mais de 30 vezes cada uma e no original,orgulha-se o jurista pernambucano, ex-ministro da Justia do governo Jos Sarney, que contou com um historiador e um jornalista portugus no levantamento de Uma Quase Autobiografia, que, agora, na stima edio, tem na coletnea um complemento pela mesma editora Record. As obras se completam. No s porque a primeira ofereceu o lastro a esta que lanamos agora, mas tambm porque na voz de Pessoa entendemos o que ele viveu. E vice-versa.

Organizada por tpicos temticos  sim, como em sites de citao, mas de fonte fidedigna , a reunio ajuda a desvendar mais da vida e dos procedimentos literrios do criador do Livro do Desassossego, segundo o crtico ingls Paul Bailey, o livro do sculo XX. Situao do excerto que abre a entrada de frases intitulada Felicidade: Se eu casasse com a filha de minha lavadeira talvez fosse feliz. Tido como uma metfora sobre a alegria da simplicidade, o pequeno pargrafo ganha uma nova possibilidade, esclarecida pela nota de rodap do pesquisador. Quando viveu na rua Coelho da Rocha, na capital portuguesa, Pessoa, muito cuidadoso com as prprias roupas, manteve uma lavadeira, Irene. Entre os anos 1920 e 1928, ele estava separado de seu grande amor, Ophelia Queiroz, e namorou Guiomar, moa de idade prxima a sua. E filha de sua lavadeira, diz Cavalcanti.

"As frases atribudas ao poeta so quase sempre falsificaes fajutas" - Jos Paulo Cavalcanti Filho

Desse cruzamento, o advogado chegou a outra concluso. Pessoa escrevia s sobre ele mesmo ou sobre o mundo prximo que o circundava. No que o direcionamento seja raro entre escritores, sobretudo os poetas, teoricamente, os mais subjetivos do ofcio. Seus escritos e sua vida no se separam.

Em algumas citaes, porm, o poeta se arrisca a ir um pouco mais longe que seu umbigo. Na entrada Brasil, h dois trechos, o primeiro de lvaro de Campos (um de seus 127 heternimos), E tu, Brasil, repblica irm, blague de Pedro lvares Cabral, que nem queria te descobrir. O segundo, extrado de uma carta a Eurico de Seabra, assinada com o nome de nascena, Sociologicamente, no h Brasil.

Alm das passagens em que se enxerga a fina ironia do escritor (figura de linguagem, alis, com lista prpria de citaes), h espao at para passagens em que o poeta demonstra um gosto quase visionrio da apropriao mundial de suas frases: Penso s vezes, com um deleite triste, que se um dia, num futuro a que eu j no pertena, estas frases, que escrevo, durarem com louvor, eu terei enfim a gente que me compreenda, os meus, a famlia verdadeira para nela nascer e ser amado.


2. LIVROS - A REINVENO DOS CLSSICOS
Fbulas, contos de fadas e obras modernas ganham novas leituras de autores da estirpe de Umberto Eco e Jonathan Coe 
Ivan Claudio

Verses resumidas de clssicos da literatura costumam ser vistas como divulgao burocrtica de obras-primas. A coleo Save the Story (Salve a histria), que comea a ser lanada por aqui pelo selo Galera da editora Record aps fazer sucesso na Itlia, evita essa pecha, j que no se prope a ser um mero subproduto do original. Reescritas por consagrados autores vivos, as pequenas obras so, na verdade, recriaes do livro anterior, segundo a linguagem contempornea. J se encontram nas livrarias Os Noivos, de Alessandro Manzoni, e A Histria de Gulliver, de Jonathan Swift, o primeiro contado por Umberto Eco e o segundo por Jonathan Coe. Na sequncia, esto previstas as edies de Crime e Castigo e Rei Lear, entre outras.

PALAVRA DE ESPECIALISTA - Primeiro livro da srie, ambientado na Idade Mdia,  contado por Umberto Eco (acima), um dos maiores conhecedores do perodo

Por trs do empreendimento est o escritor italiano Alessandro Baricco, que marca presena com a sua verso de Don Giovanni.  frente da Scuola Holden, em Turim, onde dirige cursos de escrita criativa voltada para roteiristas, escritores, autores de quadrinhos e de videogames, ele acredita que a apropriao das obras, feita por nomes de peso, pode seduzir os jovens. Outra aposta  subjacente: a do simples gosto pela fabulao  e  aqui que o leitor adulto se sente fisgado.

Fs do estilo erudito de Umberto Eco, por exemplo, sero instigados a conferir a sua releitura de um romance histrico do sculo XIX (desconhecido do leitor no italiano), sobre um casal de camponeses que foge do jugo de um senhor de terras, apaixonado pela donzela. Ao apresentar a corja a servio dos nobres, apelidados de bravos, Eco faz analogia com tipos atuais. Hoje, seriam chamados de seguranas, mas ateno: eram uns verdadeiros capangas que haviam aprontado poucas e boas. Cada ttulo foi escolhido pelo prprio contador, que assim mergulha em sua memria afetiva. Em se tratando de um time como o selecionado, no deixa de ser uma boa diverso tambm para leitores escolados.


3. CINEMA - CINEASTAS DECLARAM SEU AMOR PELO RIO
Chega  Cidade Maravilhosa projeto que homenageou Paris e Nova York pela lente de grandes diretores
Mariana Brugger

O amor chegou ao Rio de Janeiro. Depois de Paris (2006) e Nova York (2009), a franquia Cities of Love, projeto cinematogrfico ambientado em grandes metrpoles, desembarcou na capital fluminense para seu terceiro filme, Rio, Eu Te Amo.

VAMPIRO - Tonico Pereira e Roberta Rodrigues em cena do filme do sul-coreano Im Sang-Soo

As filmagens comearam no comeo do ms, com roteiro do brasileiro Carlos Saldanha (autor de Rio) e do sul-coreano Im Sang-Soo (famoso pelo longa O Gosto do Dinheiro). Saldanha vai contar a histria de dois bailarinos, vividos por Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer. Sang-Soo prestar uma homenagem aos garons em um enredo que envolve vampiros. O diretor sul-coreano escolheu para a locao o Morro do Vidigal, favela fincada entre os elegantes bairros do Leblon e de So Conrado, com vista total para o mar, na zona sul carioca. Enquanto a trama amorosa se desenrola, o ambiente ganha a importncia de um personagem.

O projeto est orado em R$ 20 milhes e tem dez histrias de sete minutos cada que, ao final, viram uma s. Quando falamos em ilustrar histrias de amor nas cidades, o Rio est no topo da lista de locaes, explica o produtor francs Emmanuel Benbihy, responsvel pela franquia.

BAL - Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer vivem casal de bailarinos no espisdio assinado pelo brasileiro Carlos Saldanha

Cada curta ter um diretor diferente, e oito j esto confirmados, entre os quais Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e Jos Padilha (Tropa de Elite). Padilha vai filmar o romance entre um instrutor de asa-delta e sua aluna em narrativa que acontece durante um voo sobre a Cidade Maravilhosa. Outros confirmados so o australiano Stephan Elliott (Priscilla, A Rainha do Deserto), a libanesa Nadine Labaki (Caramelo) e o mexicano Guillermo Arriaga (Babel). Nadine filmar o encontro e desencontro de um casal na Gamboa, zona porturia carioca, e Elliott vai contar uma histria que se passa no Po de Acar.


4. CINEMA - SOLDADOS DO FUTURO
"Elysium", com Wagner Moura e Alice Braga, confirma o sucesso da frmula que usa fico cientfica para tratar da desigualdade social e conquista o primeiro lugar em sua estreia nos EUA
Mariana Brugger

O ano  2154 e o mundo se encontra dividido. Os habitantes da Terra, destruda, vivem afundados em misria e doenas. Os privilegiados moram em Elysium, uma estao espacial onde reina a perfeio. Sem doenas, sem guerra, sem pobreza. Um universo perfeito cercado de autoritarismo e crueldade, marca das fices cientficas atuais. Adicione  histria dois atores com o peso de Wagner Moura e Alice Braga e transforme o filme em uma das estreias mais aguardadas do ano pelos brasileiros. O segundo longa-metragem do diretor sul-africano Neill Blomkamp (Distrito 9) entra em cartaz em20 de setembro, referendado pelo sucesso americano, no topo da bilheteria no primeiro fim de semana de exibio, com arrecadao de US$ 30 milhes em trs dias.

ARANHA - Wagner Moura no papel de Spider, hacker capaz de furar os bloqueios e invadir a estao espacial reservada para a elite, que abandonou o planeta natal destrudo

O longa marca a estreia de Wagner Moura em produes hollywoodianas. Com uma atuao considerada fantstica pelo jornal The New York Times, Moura divide a cena com os veteranos Matt Damon e Jodie Foster. Gosto de filmes que tenham um pblico grande e algo a dizer, diz o ator, que, assim como Alice Braga, fez questo de dublar seu personagem para a verso em portugus do filme. Conhecido como socialista sci-fi, Blomkamp usa a tecnologia e os efeitos especiais para tratar de questes sociais, como em seu primeiro filme, Distrito 9, de 2009, que falava sobre preconceito racial e foi indicado a quatro Oscar. O enredo futurista da nova produo ganha ares de realidade ao tratar das diferenas entre ricos e pobres.

A escolha do elenco, portanto, obedeceu a uma pretenso do diretor: trabalhar com atores que venham de economias emergentes e conheam de perto a distribuio desigual de riquezas. A diferena entre ricos e pobres vai ser cada vez pior, no importa o quanto a gente tente mudar. Isso faz parte da natureza humana, disse o diretor em entrevista  BBC.

O sucesso dos filmes de fico cientfica por aqui pode ser explicado por outra paixo nacional: o videogame. O Brasil  um dos maiores consumidores de videogames no mundo e tanto eles quanto os filmes de sci-fi tm a mesma funo ldica: transportar o espectador para um mundo imaginrio, pondera Hernani Heffner, professor de cinema mundial do Departamento de Comunicao Social da PUC-Rio. Ele acredita que o brasileiro gosta desse gnero porque, sendo um povo que viveu uma histria de estagnao econmica e social longa, pode sonhar com um futuro melhor. Esses filmes se transformam em um referencial do que pode ou no dar certo nos anos que viro. Alm disso, somos uma nao culturalmente aberta para essas propostas ldicas, avalia.

Esse tipo de filme oferece a possibilidade de ver nossos maiores temores, gera catarse no espectador, explica Alfredo Suppia, coordenador do Laboratrio de Estudos em Fico Cientfica da Universidade Federal de Juiz de Fora. Suppia diz ainda que o gnero, apesar da alta carga de efeitos especiais, consegue promover reflexes sobre o amanh. Elysium conta a histria de Max da Costa (Matt Damon), um ex-presidirio que sofre um acidente radioativo. Para se salvar, ele procura a ajuda de Spider (Wagner Moura), um hacker que atravessa pessoas ilegalmente para a base chamada Elysium, passando pela vigilncia impiedosa da secretria Delacourt (Jodie Foster), responsvel por manter a perfeio da estao espacial. Para ajudar Max, Spider exige que sejam roubadas informaes sigilosas sobre a separao dos dois mundos. Para a misso, ele contar com a ajuda de sua amiga de infncia Frey (Alice Braga), que tem uma filha doente.

CONDOMNIO - A estao Elysium, onde os endinheirados vo se isolar da misria e da doena que tomar conta da Terra em 2154

O lanamento de Elysium no Brasil pretende valorizar as estrelas nacionais. Para isso, o trailer exibido por aqui deu mais espao para as cenas de Moura e Alice. A presena deles, alm da qualidade do filme em si, refora o sucesso da estreia brasileira, aposta Rodrigo Saturnino, diretor geral da Sony Pictures no Brasil, empresa responsvel pela distribuio do longa. Segundo Saturnino, a expectativa  que o filme estreie em 300 salas de cinema em todo Pas.


5. EM CARTAZ  MSICA - O ENCONTRO DE MARCOS VALLE E STACEY KENT
por Ivan Claudio

To influente no cenrio internacional quanto os criadores da primeira fase da bossa nova, o cantor, compositor e pianista Marcos Valle comemora 50 anos de carreira (e 70 de idade, no ms que vem) com um disco que faz a ponte entre a msica brasileira e o jazz. Gravado numa temporada de shows no Rio de Janeiro no ano passado, Ao Vivo, feito em parceria com a cantora americana Stacey Kent, rene composies conhecidas e outras inditas. No primeiro grupo destacam-se as verses em ingls de Seu Encanto, A Resposta, Samba de Vero e Preciso Aprender a Ser S, lanadas no clssico lbum O Compositor e o Cantor, de 1964. Entre as novidades, La Petite Valse, cantada por Stacey em francs, mostra a versatilidade de Valle, que funde bossa e chanson parisiense.

+5 parcerias de msicos brasileiros e estrangeiros

TOM JOBIM
 Em 1967, ele gravou o disco Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, com a verso americana de Garota de Ipanema

JOO GILBERTO 
Getz/Gilberto, de 1964, feito com o saxofonista Stan Getz, deu trs Grammy ao brasileiro

CAETANO VELOSO 
 Lanou no ano passado o CD Live at Carnegie Hall, resultado de um show com David Byrne

GILBERTO GIL 
South Africa Meeting of Viramundo marca o seu encontro com o msico sul-africano Vusi Maheleseala

MILTON NASCIMENTO
 Canta clssicos como Ponta de Areia acompanhado pelo sax de Wayne Shorter no CD Native Dancer


6. EM CARTAZ  LIVROS - UM INFANTE NO CINEMA
por Ivan Claudio
Quando era pequeno, o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante era sempre perguntado por sua me: quer ir ao cinema ou comer sardinha? Ele escolhia, claro, a primeira opo. Mais tarde roteirista e crtico de filmes, seus escritos sobre a stima arte so agora publicados em Cinema ou Sardinha (Gryphus), cujo primeiro dos trs volumes traz 27 textos curtos. Infante, revelado pelo romance Trs Tristes Tigres, de 1965, trata de Georges Mlis a John Ford e George Cuckor com a mesma maestria vista em seus livros.


7. EM CARTAZ  ARTE - MUITO ALM DA LOUCURA
por Ivan Claudio
O debate sobre a obra do artista plstico Arthur Bispo do Rosrio (1911-1989)  h algumas dcadas objeto da crtica de arte, da psicanlise e da psiquiatria em anlises quase sempre inconclusivas sobre a origem de sua criatividade. O livro Arthur Bispo do Rosrio  Arte Alm da Loucura (Nau Editora/Livre Galeria) chega este ms s livrarias com um veredicto: a obra internacionalmente reconhecida do paciente internado com diagnstico de esquizofrenia no deriva da doena mental. Com textos do crtico de arte Frederico Morais, o volume organizado pela psicanalista Flavia Corpas reproduz parte do acervo do artista e traz trechos de entrevistas que ele fez com Bispo do Rosrio. De indito, o primeiro pronturio de internao do artista, de 1938, e a confirmao do passado como boxeador.


8. EM CARTAZ - CINEMA  ENTRE AMORES
por Ivan Claudio
Divorciado, pai de duas crianas, Uriel (Jorge Drexler) vive aquelas entressafras amorosas em que a diverso se torna inversamente proporcional  qualquer possibilidade de vnculo amoroso. At que um encontro casual muda o rumo da histria e da conduta do incurvel conquistador. Apaixonado ento por Gloria (Valeria Bertuccelli), o protagonista de A Sorte em Suas Mos tenta reverter uma bem semeada fama de enganador, cultivada e disseminada at mesmo entre as filhas pequenas, como se pode ver em cenas que levaram o romance filmado pelo diretor argentino Daniel Burman a ser classificado como comdia. 


9. EM CARTAZ  TEATRO - COMDIA BEM-VESTIDA
por Ivan Claudio
Miguel Falabella assina a verso brasileira de The Drowsy Chaperone, musical de Bob Martin e Don McKellar. A Madrinha Embriagada, do diretor brasileiro, conta a histria da tentativa de sabotagem do casamento de uma ex-atriz, ambientada nos anos 20, ou melhor, nas memrias do perodo em que a arte moderna comeava a ser assunto nas manses paulistanas. Destaque para os mais de 180 figurinos usados em cena  todos assinados pelo estilista Fause Haten. A comdia musical fica em cartaz do Teatro do Sesi (em So Paulo). A entrada  franca.


10. EM CARTAZ  AGENDA - MIMO/ED WOOD/ZUBIN MEHTA 
Conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio

MIMO
 (Paraty, a partir de 23/8; Ouro Preto, de 29/8 a 1/9; e Olinda, de 2/9 a 8/9)
 Em sua dcima edio, o festival de msica traz como destaques Herbie Hancock, Madredeus e Nelson Freire

ED WOOD
 (Caixa Cultural, So Paulo, at 30/8)
Retrospectiva com todos os filmes do cineasta B americano, entre eles Glen or Glenda, de 1953. Ser exibida tambm a cinebiografia assinada por Tim Burton

ZUBIN MEHTA 
 (Sala So Paulo, So Paulo, dias 20/8 e 21/8)
 O maestro rege a Filarmnica de Israel em peas de Mozart, Dvork, Brahms e Mahler


11. ARTES VISUAIS - NO PAS DAS BOLINHAS
Retrospectiva em Buenos Aires traz a japonesa Yayoi Kusama, em prosa, pintura, filme e performance
por Paula Alzugaray

YAYOI KUSAMA. OBSESIN INFINITA/ Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba)/ at 16/9

A obsesso mais recente que se tem notcia em se tratando de pintura de bolinhas  a do britnico Damien Hirst, que nos ltimos 20 anos pintou cerca de 1.400 telas da srie Spot Paintings. O interesse pela repetio de pontinhos coloridos comeara, no entanto, no final do sculo XIX, quando o pontilhista Georges Seurat desconstruiu a paisagem francesa em milhares de bolinhas. A mania pelas esferas viria a se espalhar pelos artistas da op art, nos anos 1960, mas a maior autoridade em pontos coloridos do planeta  mesmo Yayoi Kusama, cuja paixo por esferas  revisitada na mostra Obsesin Infinita, em cartaz no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba) at setembro, e em itinerncia a partir de outubro por Braslia, Rio de Janeiro, So Paulo e Cidade do Mxico.

SEXO - Yayoi Kusama posa dentro da instalao "Infinita Sala de Espelhos - Campo de Falos", em 1965

Ao apresentar 100 obras criadas entre 1950 e 2013, a exposio esclarece que a repetio  um mecanismo presente em todas as fases dessa artista nascida em Matsumoto, no Japo, em 1929. Mais especificamente, a partir das pinturas monocromticas da srie Infinity Net (Rede Infinita), dos anos 1950, quando a artista se instala em Nova York e entra em contato com a comunidade de minimalistas l residentes. Nessas pinturas, Yayoi repete o desenho de semicrculos brancos sobre fundo branco, criando uma textura sutil de efeito meditativo, associada por ela ao ritmo de ondas do mar.

As tcnicas seriais se reproduziriam nas esculturas moles Accumulations (Acumulaes), realizadas com tecidos, sempre em formas flicas. Durante todo o ano de 1962, os falos de tecido se multiplicariam em quantidades imensurveis encobrindo mveis, roupas e objetos, de modo parecido ao que apareciam na obra de outra estrangeira residente em Nova York, a francesa Louise Bourgeois. Mas as bolinhas ganham campo na obra de Yayoi em 1963, quando a artista coloca o prprio corpo em cena, inaugurando a pesquisa da body art na cena underground nova-iorquina. Nessa fase, as bolinhas proliferam por seu corpo e espaos instalativos, em gestos que a artista associa a processos teraputicos de combate a traumas e alucinaes de infncia. A prtica no ambiente libertrio e experimental da Nova York dos anos 1970 no foi suficiente, no entanto, para liberar a artista de seus monstros. Em 1977, ela se internaria voluntariamente em uma clinica psiquitrica, em Tquio, onde vive at hoje.

MSTICA - Na instalao "Infinita Sala de Espelhos - Plena do Brilho da Vida", o espectador sente-se flutuar

Foram mais de 30 anos de obscurecimento at voltar  luz do sistema de arte internacional em exposio no Centro Georges Pompidou, Paris, em 2011. Na ocasio, Yayoi realizou at vitrines para a grife Louis Vuitton. A mostra passou por Londres, Madri e chega a Buenos Aires modificada. Ao contrrio da loucura, esse trabalho  apesar de ter recebido descargas psquicas e simblicas   invariavelmente desenvolvido com um formidvel controle de meios, escreveu a crtica Sheila Leirner na revista seLecT, em ocasio da mostra em Londres.


12. ARTES VISUAIS - O JARDIM SENSORIAL DE MARIA NEPOMUCENO
MARIA NEPOMUCENO - TEMPO PARA RESPIRAR/ Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio)/ at 8/9
por Paula Alzugaray

Talvez a obra contempornea que mais se aproxime da exuberncia orgnica e simblica de O Jardim das Delcias Terrenas (cerca de 1510), de Hieronymus Bosch, seja a instalao Tempo para Respirar (2012) (foto), de Maria Nepomuceno, atualmente em cartaz no MAM Rio. No que a instalao tenha qualquer inteno de descrever a histria do mundo segundo a trade vida, paraso e inferno. Longe disso. Como o palco idlico da fantasia de Bosch, a obra de Maria sugere no apenas uma natureza, mas uma imaginao extremamente frtil. No entanto, diferentemente do trptico medieval, no h aqui nenhuma vontade de definir a temporalidade da vida terrestre, nem de discernir entre vida e morte; virtude e luxria; bem e mal. A instalao de Maria  um lugar onde diversas formas se encontram, formando um s magma criativo. Alm disso, a obra sugere uma espcie de suspenso do tempo e do espao.

Pode-se perder uma tarde visitando os detalhes e as sutilezas dessa obra feita com esculturas tecidas com contas de colar, cordas, palha, barro, fibra de vidro, resina e madeira. Essas matrias  naturais e artificiais , somadas e tecidas umas s outras, formam um imenso trabalho que remete a um ambiente (sobre)natural ou a um organismo vivo.

Concebida em 2012 para exposio na galeria pblica Turner Contemporary, na Inglaterra, a obra foi adquirida pelo MAM Rio em 2012, com recursos do Prmio Marcantonio Vilaa/Funarte, para aquisio de obras de arte. O prmio permitiu a aquisio de obras de Carlos Vergara, Emil Forman, Cao Guimares e Maria Nepomuceno. Nessa verso de Tempo para Respirar, Maria incluiu a presena delicada de uma trilha sonora, agregando a audio  festa dos sentidos que  promovida por sua obra.

